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segunda-feira, 4 de maio de 2026

DIMENSÕES DA CONDIÇÃO FEMININA NA POESIA DE MYRIAM COELI

 



                                                               
 Paulo de Tarso Correia de Melo


A literatura escrita por mulheres tem tradição no Rio Grande do Norte. Na “História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins, Nísia Floresta é localizada como a primeira romancista nacional. Segue-se a ela, no início deste século, Auta de Souza, também editada em Paris, prefaciada por Olavo Bilac e Alceu Amoroso Lima. Apontada por Jackson de Figueiredo como “a maior poeta mística do país”, conta, ainda em nossos dias, com uma invejável forma de consagração popular, quando aparece pretensamente psicografada pelo Brasil afora, em recantos distantes do seu Rio Grande do Norte.

Pelos meados deste século, a tradição continua, e começo eu a ser testemunha ocular desta história. Tive a adolescência iluminada pelo incomparável azul dos olhos de Madalena Pereira. Nos limites dos bairros de Petrópolis e Tirol, morava Palmyra Wanderley, premiada pela Academia Brasileira de Letras. Nas proximidades, também morava eu e a encontrava em seus passeios matinais, quando as acácias floriam. Antes disso, Zila Mamede, amiga de minha mãe e, consequentemente, minha amiga pelo resto de sua vida, ajudara a bordar minhas roupas de recém-nascido. Paguei-lhe trinta anos depois, escrevendo a introdução às suas obras completas. Na juventude, Myriam Coeli e Celso Silveira, foram alguns dos irmãos mais velhos que não tive. Diva Cunha, colega de faculdade, casou com meu amigo mais fraterno. Hoje, ao lado de Nivaldete Xavier, Marise Castro e Iracema Macedo, conta-se entre amigas e companheiras de ofício. Conheço, portanto, bem de perto, uma boa parte da melhor literatura escrita por mulheres no Estado e hoje é de Myriam Coeli, tão oportuna e merecidamente homenageada pela AJEB, que devo e quero falar.

Myriam Coeli de Araújo Dantas da Silveira nasceu, por acaso, em Manaus, Amazonas. Aos dois meses de idade, por morte de seu pai, José Silvino de Araújo, a família retorna a São José de Mipibu, na região do agreste norte rio-grandense. Apesar disso, sempre que leio as suas odes, pergunto-me se a amplidão do pensamento poético e a largueza do verso não têm algo a ver com a impressão de ter nascido rodeada pela floresta amazônica.

No Grupo Escolar Barão do Mipibu, Myriam faz o curso primário. Em seguida, vem para Natal, para o colégio de belo nome, o Atheneu, primeiro ginásio do Brasil, fundado em 1825, onde faz ginasial e clássico. Ao terminá-los, Natal ainda não contava com universidade. Transfere-se para Recife, onde, na Faculdade de Filosofia São José, das Dorotéias, gradua-se em Letras Neo-Latinas. Em 1954, bolsista do Instituto de Cultura Hispânica, diploma-se pela Escola Oficial de Jornalismo de Madrid, tornando-se a primeira mulher no Estado a ter curso de Jornalismo, o que faz indispensável a homenagem que lhe presta, nesta semana, a Associação das Escritoras e Jornalistas do Brasil.

De volta ao Estado, casa-se com Celso Dantas da Silveira, com quem tem dois filhos: Christiana Coeli e Eli Celso. Além da poesia, dedicou sua vida às duas atividades para as quais havia se preparado, o magistério e o jornalismo. Volta ao Atheneu para ensinar Língua Latina e Literatura Portuguesa; Língua Francesa no Colégio Municipal João XXIII, Língua e Literatura Portuguesa na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, História da Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia e História da Imprensa na Faculdade de Jornalismo. Invejo todos e cada um dos alunos que se encontram com a sua sabedoria mansa, com a sua paciente ternura.

  Myriam Coeli trabalhou em todos os jornais da época - Tribuna do Norte, Diário de Natal e A República - e foi a primeira jornalista profissional do Estado a dar plantão em jornal. Conheci-a com pouco tempo de casada. Não morava ainda na casa bonita da Alexandrino, mas na Rua São Tomé, exatamente por trás do jornal A República. Fantasio o retorno do plantão. Myriam saindo do prédio d’A República, subindo um quarteirão, sem mudar de calçada, pela Juvino Barreto, na calma noite da Ribeira da época, dobrando a esquina da São Tomé e avistando Celso esperando na frente de casa, Christiana e Eli já adormecidos. Eu sempre tive a impressão que, como Swedenborg, vez por outra ela se atrasava, conversando com os anjos entre as duas esquinas do pequeno percurso enluarado.

Para falar da poesia de Myriam Coeli, em uma conversa de poucos minutos, começo dizendo que foi e continua sendo a mais universal das nossas poetas. Já se registra em  Imagem Virtual, seu primeiro livro, lançado em parceria com Celso, em 1961: “A Europa empresta ao seu trabalho poético uma forma e sentido mais amplos.” Exemplo disso é o último poema do livro, Carta a Gagarin, onde Myriam mistura magistralmente a “frágeis esperanças do cotidiano”, o fato universal.

   Camarada,

   a emocionada mão que te saúda

   deste pedaço da América

é pura e suave;

as palavras que escrevo

para exaltar a tua aventura pelo espaço

quero-as simples e antigas

como as canções com que adormeço minhas crianças;

e dizer com elas - as palavras purificadas -

que trouxeste profunda alegria

por sabermos - poetas que somos - transitórios em terra azul e imatura:

por sabermos - artesãos que somos - do futuro de nossos filhos

nesta contrastante terra azul que teus humanos olhos viram.

Nós, teus irmãos de origem, te agradecemos

o que nos revelaste: do céu escuro, do sol brilhante e estrelas

e agradecemos as paisagens que viste e a mensagem azul que delas irradiaste

para as nossas frágeis esperanças do cotidiano

e nos orgulhamos de ti, profundamente;

-todos de nossa casa, de nossa cidade, dos quatro cantos do mundo,

todos que lutamos, que sofremos, que temos parcas alegrias e carregamos     esperanças

todos nós que temos no peito canções e braços de berço

e nos alimentamos de azul;

todos em qualquer situação ou latitude,

nos apontamos a mão e te brindamos o nosso abraço, um largo e caloroso abraço.

E mais te oferto: a úmida ternura

que pressinto brilhar nos olhos de meus filhos Christiana Coeli e Eli Celso

quando eu canto para adormecê-los.


O trabalho poético extremamente cuidadoso de Myriam, faz com que, embora publicando constantemente em jornais e revistas literárias, antes da publicação do primeiro livro e entre o primeiro e segundo, se estabeleça um intervalo de vinte anos entre Imagem Virtual e Vivência sobre Vivência. Neste segundo livro, dividido em Livro de Odes e Cantos de Oferta e Servidão, a poesia de Myriam se agiganta, “ganha aquela altura da poesia em que nada existe a acrescentar”, como disse no prefácio Luís Carlos Guimarães. Exemplo disso é o poema Arquitetura.


No seu covil

de barro e vidro

com artefatos

mecanizados,

se agita o homem

o branco enigma

de deus amalgama.

E tem a vida 

árvore amarga

frutificada

no corpo e fala.

Se chama acende

de espera e sonho

há insone grito

em suas cavas.

A vida o prende

em suas malhas

de frágeis lãs

-obreira sábia

que a teia tece

com murchas mãos

tácito enleio

de céu no lodo

no instante breve

dentro do nada.


Lembro uma reunião em casa de Diógenes da Cunha Lima, imediatamente após o lançamento de Vivência sobre Vivência, engenhoso desde o título. Sentei-me ao lado de Myriam e falei com entusiasmo da depuração de sua poesia, parecendo que o sofrimento físico a fazia melhor, desde que já a consumia nesta época o câncer que a levou e que ela enfrentava corajosamente. No meio da conversa, com a modéstia que sempre lhe marcou, Myriam escapou aos elogios com uma nota bem-humorada:

-Pare, Paulinho, ou daqui a pouco você vai me desejar que piore de saúde para escrever mais bonito.

Eu não desejei, não poderia nunca, mas aconteceu.

Cantigas de Amigo, o terceiro livro de Myriam, mereceu o Prêmio Municipal de Poesia Otoniel Menezes e tem como prefácio dois belíssimos poemas-autógafos de Stella Leonardos. Neste livro, Myriam demonstra todo seu conhecimento das raízes da poesia de língua portuguesa, numa reconstrução da tradição somente comparável às alturas de Cecília Meireles e da própria Stella.


Neste engano que é o tempo

Eu caminho. Eu me colho.

Meu trovar, travo, recolho.

Ferida viva eu me aguento.


Neste desdouro eu me encontro

E teço minha parábola

Em tear de silêncio e sôbola

Que, tecendo em nu, confronto


Com que sem ser, poderia.

Assim caminho, assim canto.

Amor, pena que descanto

Que amante só ousaria.


Agradeço a oportunidade que a AJEB me oferece, motivando-me a escrever um pouco sobre Myriam Coeli, coisa que ainda lhe devo, um estudo aprofundado de toda obra, à semelhança dos que fiz para Zila Mamede, Sanderson Negreiros, Luís Carlos Guimarães e Deífilo Gurgel. Em relação à poeta, não me satisfazem a introdução que fiz para sua póstuma fortuna crítica Ave Myriam e umas quadras tortas que escrevi para uma coletânea lançada na ocasião em que completaria 70 anos. Ainda não é desta vez que faço o estudo pretendido, mas quis aproveitar o momento para dar uma amostragem dirigida da poesia de Myriam. O Carta a Gagarin é poema de poeta mãe cidadã do mundo. Arquitetura é poema de mulher poeta metafísica do mais alto nível. O poema XXIII de Cantigas de Amigo é de mulher poeta amante, como o é o livro em sua totalidade. Quero encerrar com Variações para Rondó, dedicado a sua avó Maria Carolina, peça de seu precioso Inventário, Prêmio Estadual de Poesia - 1981 - da Fundação José Augusto, publicado postumamente. O poema é uma arqueologia da condição tradicional da mulher na sociedade brasileira. Terno, doce e bem-humorado, como era Myriam.


De compostura conventual,

a avó que foi sinhá

e as avós da avó

sentam-se em longas mesas

cobertas de linho branco de delicados bordados.


Tão meninas e tão barrocas,

metidas em tantas roupas

sobrando nos sofás.


De velhas estórias que se guardam, ficaram as avós

como a lenda na lembrança,

deixando-se servir por negras de África,

em porcelanas de Inglaterra e França.

Porque de sins serviam a seus senhores.


Tão meninas e tão barrocas

metidas em tantas roupas

viviam essas sinhás.

Para os folguedos não esquecidos

da quadra infantil,

nas grandes salas, valsas de piano ressoavam,

o riso, o choro de crianças

e os embalos das mucamas.


Essas meninas barrocas

lembraram suas bonecas

esquecidas nos sofás.


Tinham os gestos breves das polcas e minuetos

deslizantes em salões de pinho de Riga - pés gracis;

e os falares intrigantes, embora de amor constante.

Nas cabeças inquietas, sonho que desatina.

O sorriso se escondia por trás de leques da China.


Tão meninas e tão barrocas,

de graça muita, alegria pouca,

suspiravam essas sinhás.


Tão românticas passaram em varandas patriarcais

de apuradas formas de ânforas, rosetas e flor-de-lis

e em lembranças se arrumaram

assim em retratos, de golas altas e cabelos em bandós,

ornatos de colares de ouro, e pedrarias;

tão infantas, Deus meu, mas tão matriarcais,

tão sós e tão serenas em suas entampas retocadas,


tão meninas e tão barrocas,

enfatuadas com tantas roupas,

rendado nos sofás,


que hoje para esta avó de avoengas sinhás

o meu beijo dirijo, assaz respeitoso,

neste século XX desgracioso,

sem dengues, sem leques,

sem doçuras de sinhás.


Ah! quem nos dera assim meninas tão barrocas,

vestidas naquelas mesmas roupas

arrumadas nos sofás!



                                                                                    Natal, 19/11/97.

terça-feira, 10 de março de 2026

VESTIDO DE MULHER

 

Nesta foto eu vejo o tempo
Vestido de mulher
Dois horizontes distintos
Vestidos de mulher
A maternidade numa
Vestida de geração
A juventude, em outra
Vestida de gratidão
Eu vejo café preparado
Na cozinha do coração
Adoçado com sorrisos
Vestidos de emoção.

Francisco Martins
10 março 2026

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ODE AO GUARDA-CHUVA

 


Guarda-chuva! Hoje eu quero conversar contigo. Tu que és para mim um símbolo de proteção, nas intempéries da vida. Guarda bem essas palavras.

Guarda-chuva, quantas memórias temos juntos! Lembras daquele dia causticante? Tu me trouxeste sombra e me protegeste do calor, que vinha montado no cavalo do vento.

Guarda-chuva, vejo teus antepassados em fotos antigas, nas mãos de senhores tão importantes: barões, presidentes e outras autoridades.

Tu és bastão contra a fúria, escudo na tormenta, mas és também cantor! Sim, quando fazes da chuva um instrumento musical e me permites ouvir a sonoridade das gotas molhando teu corpo.

És exemplo de resiliência, quando me dizes que a vida continua, mesmo após o mau tempo.

Ah, Guarda-Chuva, quantos de tua espécie eu já perdi! Onde os deixei? Quem os encontrou?

Que tu sejas um amigo que comigo viverá por longos anos.


Francisco Martins

19 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A FORÇA DAS HISTÓRIAS

 

 QUERO CONTAR HISTÓRIAS

QUE SEJAM LEVADAS PELOS VELHOS VENTOS,

QUE ELES AS ENTREGUEM EM TODOS OS PAÍSES,

LEVANDO AOS CORAÇÕES SEDENTOS DE ALEGRIAS.


QUERO CONTAR HISTÓRIAS

QUE FALEM DE AMOR E RESPEITO,

QUE ENSINEM AS PESSOAS A FAZEREM UM MUNDO MELHOR.


QUERO QUE AS PERSONAGENS DAS MINHAS HISTÓRIAS

SEJAM REAIS, COM FANTASIAS QUE SOMENTE OS OLHOS PUROS  POSSAM VÊ-LAS.

QUE HAJA EM CADA CENA A BELEZA DAS CORES, A SONORIDADE DE TRILHAS QUE AS FAÇAM RELEMBRAREM A HISTÓRIA OUVIDA.

QUERO CONTAR HISTÓRIAS QUE FAÇAM AS PESSOAS DAREM AS MÃOS, DERRUBAREM FRONTEIRAS, DESTRUIREM "BABEL".

E QUE O GÊNESE DO CONTADOR E DA CONTADORA TENHA A FORÇA  DA  FRASE: 'NO PRINCÍPIO ERA  O VERBO ..."

Francisco Martins - 30 outubro 2025.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

POEMA DO ADEUS





Para Paulo de Tarso

Quando fores a um sepultamento
E se despedires
De um ente querido.
Saibas tu
Que ali não deixarás 
Tão somente a matéria 
Que contigo conviveu
Levarás em teus olhos
As lembranças dos momentos
Vividos.
Teus ouvidos, inda ouvirão a voz
Da pessoa que estais a se despedir.
Ela soará, unicamente a ti, como folha de Outono,
Caindo ao compasso do tempo
E, em meio a dor e saudade,
Sairás dali com  a certeza de que não sepultastes
Tão somente um amigo, uma amiga, um amor, um parente.
Deixastes também um pedaço de ti
Carinhosamente  envolvido em um lenço
Todo feito com fibras de saudade e bordado com adeus.

Francisco Martins
22 outubro 2025

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

PARA SABER MAIS SOBRE SEBASTIÃO FERNANDES, O POETA


Sebastião Fernandes além de ter sido Professor, Promotor Público, Procurador-Geral do Estado, Juiz, Diretor de Estado, Secretário Geral do Estado, Desembargador do Supremo Tribunal de Justiça, foi também poeta, tendo lançado o livro “Alma Deserta”, aos 26 anos.

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito de Recife, turma de 1902, Sebastião Fernandes estava de malas prontas para fazer carreira jurídica em São Paulo, onde contava com o apoio dos primos Gaspar e Tobias Monteiro, quando resolve atender o convite de Pedro Velho, Governador, e vai morar em Mossoró, exercendo a função de Promotor Público de Mossoró, assumindo o cargo em 1903, aos 23 anos de idade.

Em Mossoró permaneceu até o ano de 1907 onde colaborou bastante com a cultura local, conforme testemunham Câmara Cascudo e Raimundo Nonato, respectivamente em “Notas e Documentos para a História de Mossoró” e “Desembargador Sebastião Fernandes de Oliveira – o último fidalgo do Rio Grande do Norte”. Escrevi ese artigo como objetivo de apresentar ao leitor, um pouco da produção poética de Sebastião Fernandes, homem que viveu 61 anos.

Paulo Afonso Linhares, autor da plaqueta “Sebastião Fernandes: uma pluralidade inquieta” afirma que o poeta “faleceu placidamente no dia 29 de maio de 1941, em Natal. No seu último instante pediu a companhia da sua amada companheira de quase quatro décadas, D. Alice, a quem brindou com um derradeiro sorriso. Na morte, como na vida, Sebastião Fernandes manteve acesa a chama da paixão. Da paixão daqueles que, humanos, em nada estranham as coisas da humanidade, seguindo o pensamento vivo de Terencius, o grande poeta latino”.

Outra curiosidade sobre o dia da morte de Sebastião Fernandes, é contada pelo pesquisador e historiador Cláudio Augusto Pinto Galvão. Ei-la: “Algumas vezes disse que, se fosse homem de posses, contrataria uma grande orquestra para que, no momento de sua morte, tocasse a Ave-Maria de Gounod.

Na tarde daquele 29 de Maio a saúde de Sebastião Fernandes aos poucos se  esvaía e às 18 horas precisamente, sua vida chegava ao final. Naquele momento, quando o sol se punha do outro lado do Potengi, tingindo de luzes o céu de crepúsculo, o rádio de seu vizinho à Rua São Tomé, sem saber o que se passava na casa ao lado, realizava a sua vontade, tocando a Ave-Maria de Gounod” (Galvão, 1994; p. 18).

Há quem diga, que no campo literário, Sebastião Fernandes teve maior projeção na arte poética, que no drama. A produção poética de Sebastião Fernandes começou aos 15 anos e o exercício o acompanhou ao longo da vida.

“As letras foram sempre o meu maior prazer”, escreve Sebastião Fernandes, aos seus filhos. Poeta Romântico e Parnasiano que não se contentava apenas com a inspiração, mas também com a palavra, argamassa do poema, que por sua vez não podia fugir à forma. De que tratou a pena poética de Sebastião Fernandes?

 

Ele escreveu sobre variados temas, abordando o civismo, o amor, cidades, morte, sofrimento, mulher, estações, amigos, etc. Há uma escalada de maturidade poética em seus poemas, como é de praxe a todos que começam cedo a escrever. “Fiz versos simples diletantes, como quase todo moço, no Brasil, o faz” (Galvão, 1994, p. 26), mas não ficou na planície da simplicidade. Gosto quando Sebastião Fernandes em seus poemas, faz o eu-lírico filosofar.

 

 

“Às vezes fico só, dentro da noite imensa:

             Que silêncio imortal! – Homens que somos nós?!”

 

E neste mesmo poema, sem título, ele perguntava à solidão, como se a mesma não fosse um substantivo abstrato.

                                  “Dá-me, se podes tu, essa resposta aziaga:

                    – Para aonde vai a luz, quando a chama se extingue?

                    – A alma para aonde é que vai, quando a vida se apaga”                    (Galvão, 1994, p.96)

 

Em um outro poema “Varredor de Rua”, o poeta observa, em plena noite de lua, o trabalho do varredor, silencioso, solitário e faz o eu-lírico externar:

 

“Ah, se eu pudesse, com essa mesma calma,

                                Varrer, oh! Varredor, o lixo e a lama

                                            Dentre os castelos que erigi nesta alma”

 

Mesmo tendo a predominância do lírico em sua poesia, o poeta, em alguns casos, deixou transparecer o seu lado religioso, como em “Ato de Contrição”, escrito em 1936.

 

                            “Senhor, quanto me dói o mal que, porventura

possa eu fazer a alguém, possa eu fazer sofrer!

                             Não somos nós irmãos de toda criatura?

                             Uns aos outros, perdoar não é nosso dever?

                             …

                             Conceda-me, Senhor, em toda a minha vida,

                             o dom de perdoar toda ofensa sofrida

                             E essa graça eternal de ser justo e ser bom”.

 

Neste mesmo diapasão, o poeta escreveu a trova:

 

“Quando a morte (oh! desconsolo! Dos meus),

                                ceifar-me também,

                                 Levo comigo um consolo:

                                 Nunca fiz mal a ninguém”.

 

Embora saibamos que Sebastião Fernandes publicou em 1906, o seu livro “Alma Deserta” e também tenha publicado seus poemas em jornais da sua época, o que realmente podemos dispor sobre sua produção, e que está ao alcance da mão do leitor, é a pesquisa que foi feita, organizada e publicada por Cláudio Galvão, com o título: “Poesia Inédita:

O livro se tornou realidade em 1994, e foi lançado pela Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, evolução da Escola de Aprendizes Artífices, na qual Sebastião Fernandes foi Diretor.

São mais de 70 poesias colhidas pelo pesquisador. Um trabalho louvável, pois sem ele, quase nada teríamos em conjunto. O livro “Alma Deserta” é raríssimo. Procurei a versão física do livro e não a encontrei. Perguntei à bibliotecária do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, do qual Sebastião Fernandes foi fundador, se existia algum exemplar no acervo. Não tem! Mas, conseguiu a versão digital e mandou para mim. E graças a boa vontade de Kate Coutinho de Jesus, pude finalmente ler “Alma Deserta”.

O prefácio foi escrito por Mathias Maciel Filho, em 11 de março de 1906. Apresenta o livro, não como crítico, mas como amigo do autor e não poupa elogios à obra. Os poemas foram escritos entre os anos de 1898 a 1906, ora em Natal, Recife e Mossoró.

O então jovem poeta, colocava sua pena a serviço da saudade, dos amigos, dos amores partidos, da fé e tantos outros temas. Nesse livro, Sebastião Fernandes escreveu três poemas que tratam sobre sua genitora. São eles: “Santa”, “A minha mãe”, “Carta à minha mãe”.

Deixo ao leitor a tarefa de ler “Alma Deserta”, vide link abaixo, e, assim como fez Mathias Maciel e tantos outros leitores daquele distante ano de 1906 e seguintes, possa você também degustar da cultura poética de Sebastião Fernandes.

Depois que li “Alma Deserta”, pus a mão no arado e comecei a capinar no vasto campo da internet e também consegui encontrar outros poemas, não citados por Claudio Galvão. São eles:

1) “Independência ou Morte” - 1897, Jornal “O Irís”

2) “Ave, Libertas” - LINHARES, 1988

3) “Artística”, Recife-PE, 1900 - publicada na Revista “A Tribuna do Congresso Literário” - Natal-RN, edição 31-8-1900

4) “Dia de Núpcias” - Idem, edição 31-1-1901

5) “Vem…” - Natal-1901 - Revista “A Tribuna do Congresso Literário”, ano 1901, edição não identificada

6) “Sonho Azul” - Idem, ano 1901, S. edição não identificada.

 

Importa dizer que a Revista “A Tribuna do Congresso Literário”, circulou no Rio Grande do Norte, quinzenalmente, tendo como colaboradores : Antonio Marinho, Ezequiel Wanderley, Francisco Palma, Henrique Castriciano, Manoel Dantas, Ovídio Fernandes, Pedro Soares, etc.

A Revista circulou pelo Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará, Pará, Amazonas e pelas principais cidades do Rio Grande do Norte.

      Assim foi o poeta Sebastião Fernandes, homem de pluralidade e amante da arte poética. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da Academia Norte-rio-grandense de Letras e patrono de uma cadeira na Academia Mossoroense de Letras e patrono da Biblioteca do Campus Central do IFRN, em Natal.

 

Francisco Martins.

30 de janeiro de 2025

 

Clique aqui e leia "Alma Deserta" Alma Deserta

 

FONTES:

 

LINHARES. Paulo Afonso. “Sebastião Fernandes: uma pluralidade inquieta”. Academia Mossoroense de Letras. Coleção Mossoroense - Série B - nº 553- 1988.

 

GALVÃO. Claudio. “Poesia Inédita”. Natal -RN- 1994.

 

FERNANDES. Sebastião. “Alma Deserta”. Mossoró - RN - 1906.