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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O SEQUESTRO DA RIMA

 

   Na cidade de Versália, os poetas acordaram naquela manhã com uma estranheza que não sabiam nomear. O padeiro, que escrevia sonetos enquanto sovava o pão, tentou dizer "o sol doira a janela" — e a palavra saiu torta, sem eco, sem o doce encontro de sons que sempre a acompanhara. Algo faltava. Como o que acontece quando esquecemos uma nota de uma música conhecida: a melodia existe, mas o encaixe perfeito se perdeu.

      Foi o velho Anacleto, o mais antigo poeta da cidade, quem deu o nome ao desastre. Ao tentar compor um verso para a neta, percebeu que a rima havia sumido. Não uma rima específica — todas. O dicionário da língua estava intacto, as palavras todas no lugar, mas aquele laço invisível que fazia "amor" responder a "flor" e "mar” a "sonhar" simplesmente deixara de existir. Era como se a própria música da linguagem tivesse sido arrancada do mundo.

      E então chegou a carta. O envelope era de papel pardo. Dizia apenas: "A rima está conosco. Se quiserem vê-la viva, tragam o último verso perfeito já escrito. Assinado: Os Prosadores."

     Os poetas ficaram perturbados. E como não ficariam? Eram homens e mulheres que viviam daquela harmonia secreta. Sem a rima, seus versos saíam mancos, suas canções de ninar não embalavam, seus poemas de amor soavam como listas de compras. O jovem Eulálio, que escrevia trovas para a amada, tentou declamar e gaguejou.                A poetisa Clotilde, famosa pelos seus tercetos, chorou ao ver suas estrofes desmoronarem como castelos de areia.

— Sem a rima, somos apenas pessoas que escrevem frases — lamentou Anacleto, com os olhos úmidos. — Não somos nada.

           Enquanto o resto de Versália  murmurava em pânico, um grupo seco se reuniu na praça sob o plátano. Eram os poetas de verso livre — os que nunca pediram licença à rima para escrever. E eles, ao contrário de todos, estavam... tranquilos.

— Eu avisei — disse o jovem Bento, cruzando os braços com um sorriso de quem finalmente tinha razão. — A rima era uma muleta. Agora veremos quem sabe andar sozinho.

     E havia algo de verdade naquilo. Enquanto os sonetistas gaguejavam e os trovadores choravam sobre suas trovas mutiladas, Bento escrevia no ar, com as mãos, frases que não podiam rimar — mas que nunca precisaram rimar. Seu poema sobre o vento saiu inteiro, limpo, sem um único tropeço. Os versos livres, pela primeira vez na história de Versália, eram os únicos que continuavam de pé.

— Vejam — proclamou ele, erguendo o papel. — Isto é poesia. Sem algemas, sem correntes, sem o eco barato das palavras que se repetem.

       A multidão perturbada olhou para ele com uma mistura de inveja e ressentimento. Como podia aquele rapaz celebrar, quando a própria música da língua estava presa? E Bento, por um instante, sentiu-se vitorioso.

        Mas aquele momento, como todo triunfo por eliminação, não durou. Ao entardecer, Bento foi até a beira do rio, onde costumava escrever. E ali, sozinho, tentou compor um verso sobre a memória da mãe. As palavras vieram — vieram sempre. Mas quando chegou ao fim da frase, algo lhe faltou. Não a rima, não exatamente. Faltava-lhe aquele quebra-cabeça invisível, aquele jogo de esconder que fazia a língua dançar. Seu verso saiu elegante, correto... e vazio. Como a música tocada sem o silêncio entre as notas.

        Foi então que ele entendeu o que os sonetistas sempre souberam: a rima não era uma algema. Era um convite. Não prendia a palavra — fazia a palavra esperar por outra, ansiosa, e o encontro das duas era o próprio prazer de escrever.

         Bento voltou à praça. Os versos livres ainda estavam de pé, mas já não sorriam.

   Havia algo que os Prosadores — aquela sociedade secreta de escritores de prosa que sempre invejaram o prestígio dos poetas — não haviam previsto. Ao sequestrar a rima, eles a tinham aprisionado em uma masmorra de papel, mas esqueceram que a rima, sendo feita de som e de memória, não podia ser contida por muros.

          Naquela noite, enquanto os poetas velavam em silêncio, a pequena neta de Anacleto, que não sabia o que era rima nem prosa, mas sabia o que era música, cantou, sem querer, uma cantiga de roda. A rima, ouvindo aquela voz pura do outro lado da masmorra, reconheceu o chamado. E respondeu.

           Foi um estalo. Um verso antigo, sussurrado por gerações, atravessou o papel, quebrou o selo e voltou a habitar a boca das crianças. E, de criança em criança, de boca em boca, de coração em coração, a rima retornou à cidade — não como prisioneira, mas como algo que nunca podia ter sido presa, porque vivia não em um lugar, mas em todos os lugares onde alguém cantava.

Quando a rima retornou e a cidade voltou a cantar, os Prosadores foram encontrados. Não fugiram. Estavam reunidos na mesma masmorra de papel de onde a rima escapara, sentados em silêncio, como quem espera um julgamento.

E foi o velho Anacleto quem os enfrentou.

— Por quê? — perguntou ele, sem raiva, apenas com a voz cansada de quem perdeu e reconquistou algo em uma única noite. — Por que sequestrar a rima?

O líder dos Prosadores, um homem magro chamado Severino, ergueu os olhos. E, pela primeira vez, não havia inveja neles. Havia cansaço.

— Porque nós também queríamos ser lembrados — disse ele. — Vocês, poetas, têm a rima. E a rima é memória. Uma trova de amor sobrevive séculos porque o "amor" encontra o "flor" e o ouvido guarda os dois juntos. Nossos romances, nossos ensaios, nossas crônicas... são lidos e nem sempre lembrados. Não têm o laço que prende a palavra à memória. Nós não sequestramos a rima por ódio a vocês. Nós a sequestramos porque, sem ela, achávamos que talvez — só talvez — o mundo finalmente prestasse atenção em nós.

Houve um longo silêncio.

Continuou Severino:

— Ao prender a rima, descobrimos que ela nunca foi a inimiga. Ela era a prova de que a língua pode dançar. E nós, que escrevemos prosa, também dançamos — só que com outro ritmo. Não precisávamos roubar a música dela. A gente só precisava ouvir a nossa.

Anacleto estendeu a mão.

— Então escrevam — disse ele. — Escrevam a prosa de vocês com o mesmo cuidado com que nós escrevemos os versos. Saibam que memória não mora só na rima. Mora no que é dito com verdade e provém do coração.

 

Francisco Martins

28 de setembro de 2026

 

 

 

 

 

        


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A CARTA DE NICE

O leitor — chamemos-lhe apenas leitor, pois o nome não importa agora — estava folheando um livro, quando sua mão encontra um envelope de carta, internacional. Isso lhe chamou a atenção, afinal, em 2026, tempo de whatsApp, e-mails, redes sociais, não há mais espaço para cartas.

O envelope trazia as cores branca, vermelha e azul. O selo dizia o país de origem: República Francesa, e o carimbo dos Correios — nítido, perfeito, como se o tempo tivesse respeitado aquele 30 de setembro de 1972.

Pegou o envelope com cuidado, quase com reverência. O papel era fino como as asas de uma libélula. O remetente: Jean-Luc Moreau, 14, bis Rue de la Buffa, 06, Nice, França. O destinatário: D. Isabel de Holanda Cavalcanti, Rua General Câmara, 67, Natal-RN, Brasil.

Percebeu que estava aberto, dentro, a carta, escrita numa caligrafia inclinada à direita, firme como quem não hesita, e ao mesmo tempo trêmula nos contornos, como quem escreve sob o peso de algo que aperta o peito.

O leitor  pensou se deveria ler a correspondência que não lhe pertencia, endereçada a uma mulher que, muito provavelmente, já não estava entre os vivos. Cinquenta e quatro anos se passaram. Mas a curiosidade foi maior e  ele puxou aquela folha única.

 A tinta era escura, um azul-petróleo, e as letras pareciam ter sido feitas com uma caneta-tinteiro que ora soltava mais tinta, ora menos — como o fôlego de alguém que corre e para, corre e para.

O leitor sentou-se no banco de madeira do sebo e começou a ler.

Nice, 28 de setembro de 1972

Cara Senhora Isabel,

Há três semanas tenho sonhado com a senhora. Não sei quem é, nunca a vi, nunca ouvi seu nome antes. Mas nos meus sonhos a senhora está sentada numa sala de paredes altas, cheia de livros, com uma janela que dá para um jardim — e lá fora uma jaqueira imensa. A senhora veste um vestido escuro e lê em voz alta, mas não consigo ouvir o que diz.

No sonho, sempre olho para suas mãos. A senhora segura um objeto pequeno e prateado — um prendedor de cabelos, talvez, ou um broche. E há algo errado com a luz. A luz da sala vai ficando alaranjada, depois vermelha, e o ar fica pesado. A senhora não percebe, mas eu percebo. E grito, mas a senhora não me ouve.

Acordo com o coração disparado e a sensação de que preciso impedir algo que já está em movimento.

Ontem à noite, o sonho mudou. Vi números — 29, 30, 1. Vi um jornal, a data de outubro. E vi a senhora caída, a cabeça tocando o assoalho, a mão ainda segurando o broche. Havia fumaça.

Não sei se sou louco. Não sei se isso que escrevo é loucura. Mas passei a manhã na prefeitura de Nice, conferindo listas de passageiros, endereços, consulados. Descobri que a senhora existe — uma professora de literatura brasileira, que esteve em Aix-en-Provence em julho passado, num congresso. Deram-me seu endereço em Natal.

Pensei em não escrever. Pensei em rasgar esta carta. Mas a imagem da senhora caída naquela sala não me sai da cabeça.

Não sei o que vai acontecer. Só sei que acontece em outubro. Nos primeiros dias. E tem a ver com fogo. A senhora tem uma jaqueira no quintal?

Com todo o respeito e toda a estranheza que esta carta lhe causa,

Jean-Luc Moreau

O leitor levantou os olhos do papel. àquela hora da tarde, com a luz dourada entrando pela porta de vidro fosco. Respirou fundo.

Guardou a carta dentro do livro. Nos dias seguintes, a carta não lhe saía do pensamento. Quem era Isabel de Holanda Cavalcanti? O que teria acontecido naqueles primeiros dias de outubro de 1972? E, acima de tudo — ela teria recebido a carta a tempo?

Começou a pesquisa por onde qualquer um começaria: a internet. Isabel de Holanda Cavalcanti, professora universitária, Natal. Não foi difícil. Encontrou um verbete no site da Academia Norte-Riograndense de Letras: Isabel de Holanda Cavalcanti (1921-1972). A data de falecimento o fez parar. 3 de outubro de 1972. Três dias depois do carimbo no envelope.

O coração do leitor bateu mais forte. Leu o resto do verbete com os olhos queimando: Faleceu em decorrência de um incêndio em sua residência, na Rua General Câmara, 67. Professora de Literatura de Língua Portuguesa da UFRN, deixou vasta obra crítica...

Incêndio.

 A palavra ficou pulsando na tela. O leitor fechou o navegador, abriu a gaveta onde guardara o envelope azul. Tirou a carta com cuidado. Leu-a de novo, devagar. A luz da sala — alaranjada, depois vermelha. A fumaça. A jaqueira no quintal — será que existia?

 A carta saíra de Nice no dia  30. Voara da Riviera Francesa até o Rio Grande do Norte. Se tivesse chegado no dia 2 ou 3 de outubro, teria sido tarde demais? Ou teria chegado antes, e Isabel a lera — e não dera importância?

O leitor passou o polegar sobre a assinatura de Jean-Luc. Um homem jovem, francês, que tivera visões. Que tentara avisar uma mulher que não conhecia. Que escrevera uma carta do outro lado do Atlântico para impedir uma tragédia.

 E que, muito provavelmente, nunca soube se ela chegou a ler.

 

Francisco Martins
13 de maio de 2026

Ilustrações criadas por IA.

 



terça-feira, 10 de março de 2026

O CONCLAVE DOS NARIZES

 



Que rufem os tambores – ou melhor, que se agucem as narinas! Era o dia da "Reunião Anual dos Narizes de Especialidade", um evento tão peculiar que nem a Sociedade Internacional de Otorrinolaringologia tinha coragem de endossar. Na mesa redonda (na verdade, uma mesa de bilhar adaptada), os mais distintos órgãos olfativos do país se reuniam para discutir suas proezas e, claro, cheirar uns aos outros.

O primeiro a se pronunciar, com uma delicadeza quase etérea, foi o Nariz do Ginecologista. "Caros colegas," começou ele, ajustando seus óculos invisíveis, "minha especialidade exige uma sensibilidade ímpar. Sou perito em desvendar mistérios ocultos, em decifrar mensagens sutis onde outros apenas sentiriam... bem, digamos, a complexidade da vida. Meu trabalho é como ser um detetive de aromas íntimos, sempre em busca da harmonia, ou da sua ausência." Ele fez uma pausa dramática. "E sempre, sempre com o máximo de discrição."

Em seguida, irrompendo com uma alegria terrosa, veio o Nariz do Jardineiro. "Ah, discrição é para os fracos!" exclamou, com um leve rastro de adubo. "Eu sou o poeta da podridão, o maestro da matéria orgânica! Conheço o cheiro da terra úmida antes da chuva, o aroma da flor desabrochando e o lamento do fungo que se apossa do roseiral. Meu nariz é uma enciclopédia viva de cheiros verdes, flores e, sim, do cocô de galinha que faz a vida brotar! Sem mim, o mundo seria um canteiro sem graça!"

O Nariz do Padeiro, ainda com uma pontinha de farinha no septo, soltou um suspiro de êxtase. "Verdes? Flores? Desculpem a franqueza, mas nada se compara ao néctar divino do fermento ativando! Eu sou o guardião do pão nosso de cada dia! Meu olfato distingue o trigo sarraceno do integral, o ponto exato da massa que cresce e o cheirinho de queimado que indica que o cliente vai reclamar. Sou um alquimista de fragrâncias douradas, do doce do croissant ao rústico do pão de centeio. Minha vida é uma sinfonia de forno e delícia!"

Um nariz pequeno e encurvado, com uma leve coloração de tinta de jornal, pigarreou. Era o Nariz do Leitor. "Eu sou o portal para mundos infinitos", disse ele, com uma voz um tanto empoeirada. "Consigo sentir o aroma de uma biblioteca antiga, com suas histórias adormecidas em pergaminhos, ou o cheiro fresco de um livro recém-impresso, prometendo novas aventuras. Percebo o café derramado na página 73, o cheiro de maresia de um romance de piratas e até o resquício de lágrimas em um drama romântico. Meu nariz lê as entrelinhas invisíveis de cada narrativa!"

Um silêncio constrangido pairou no ar. Então, um nariz gordo, com um brilho suspeito e um leve aroma de uísque barato e charuto, inclinou-se à frente. Era o Nariz do Político Corrupto. Ele limpou a garganta, um som que parecia raspar notas de dinheiro. "Amigos e... bem, colegas," começou ele, com um sorriso afetado, "todos vocês têm talentos louváveis. Mas o meu nariz? Ah, o meu nariz é o mais pragmático de todos. Ele fareja o dinheiro a quilômetros de distância, detecta o cheiro de um contrato superfaturado antes mesmo de ser assinado, sente a oportunidade em cada crise. Ele distingue o aroma do suborno disfarçado de 'doação de campanha' e o cheiro do medo nos olhos do eleitor. E o melhor de tudo? Ele é totalmente imune ao cheiro de ética ou moralidade. Não perco tempo com isso, sabe? Meu foco é no aroma inconfundível do lucro fácil."

Os outros narizes se encolheram, alguns com nojo, outros com uma pontinha de inveja secreta. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o Nariz do Jardineiro sentiu o cheiro de algo podre, mas não era de adubo. Era o cheiro da pura e inabalável... corrupção.

Mas, antes que a reunião pudesse terminar em total desânimo, um pequeno e curioso nariz, que até então estava observando com olhos arregalados, levantou-se com entusiasmo. Era o Nariz da Criança. Sua voz, fina e clara, cortou o ar viciado. "Eu... eu gosto de cheirar o cheiro de bolo de vó, sabe? E o cheiro do meu cachorrinho depois do banho! E o cheiro de terra molhada quando a gente faz castelo de areia!" Seus olhos brilhavam. "Mas o que eu mais quero é sentir o cheiro de um mundo que não tem cheiro de coisa feia, nem de briga. Um mundo que cheire a flor, a pão quentinho e a abraço de mamãe. Um mundo só de cheiro bom!"

Os narizes mais velhos se entreolharam, alguns com um pingo de vergonha, outros com um raro vislumbre de esperança. O cheiro de um mundo só de cheiro bom... Aquele pequeno nariz, com sua inocência e anseio, de repente fez todos os outros narizes, por um breve instante, questionarem o que realmente valia a pena farejar.

E assim terminou a reunião, com cada nariz voltando para suas respectivas rotinas, cada um com sua peculiar habilidade olfativa. Mas, ao passarem pela porta de saída, todos foram surpreendidos por um aroma diferente, que os envolveu como um abraço invisível. Ali, discreto, estava um Nariz que Cheirava Amor e Perdão. Não falava, não se gabava, apenas exalava uma fragrância suave de aceitação e de renovação. E, enquanto cada nariz seguia seu caminho, aquele aroma os acompanhava, ensinando-lhes, silenciosamente, que a arte mais nobre de todas era a de sentir e espalhar os cheiros que curam a alma.

 

Francisco Martins

9 de março 2026


domingo, 28 de dezembro de 2025

LANÇAMENTO DO CONTO A MÃE DA LUA, DE JOHNATHAN TRINDADE

 

  Ambientado no Nordeste entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o conto narra a trajetória trágica e apaixonada de Francisco Jerônimo, um homem marcado por uma tragédia e que busca sua redenção. Rivalidades que atravessam sua infância culminam em um ciclo de vingança, obrigando-o a abandonar sua terra natal e assumir uma nova identidade.
  No Comum, pequeno povoado do Rio Grande do Norte, ele recomeça do zero, prospera como fazendeiro e encontra o amor em Cecília, com quem constrói uma família. Contudo, o passado violento, a ambição alheia e as forças da superstição nordestina jamais o abandonam. A figura mítica da mãe-da-lua, ave de canto agourento ligada a antigas lendas indígenas, acompanha a narrativa como um presságio constante.
  Entre ascensão e queda, o conto percorre décadas de transformações sociais, conflitos de terra, corrupção, traição e injustiças, mostrando como o destino de Francisco e Cecília é selado tanto por escolhas humanas quanto por forças que parecem ultrapassar a razão. Ao final, amor, culpa e memória se entrelaçam em um desfecho poético, no qual a lenda se confunde com a própria história.



segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A PRIMEIRA NOITE DE TIÃO E ROSA

 


Tião, homem de mãos calejadas  e coração de ouro, olhava para a sua noiva, Rosa, com um brilho nos olhos que as estrelas do sertão invejariam. A festa de casamento tinha sido simples, mas cheia de alegria, regada a cachaça, forró e muita prosa boa. Agora, a casa estava em silêncio, apenas o som grilado dos insetos e o vento sussurrante na palha do telhado quebrava a quietude da noite.

Rosa, com seu vestido branco de algodão, estava sentada na beira da cama de casal, a primeira que eles teriam juntos. O véu, feito de renda que sua mãe teceu, repousava sobre os ombros, e o cheiro de flor de laranjeira perfumava o ar. Tião sentia um misto de nervosismo e uma felicidade imensa. Tinha esperado a vida inteira por aquele momento.

Ele se aproximou devagar, os passos pesados no chão de terra batida. Rosa ergueu o olhar, e seus olhos grandes e escuros, cheios de doçura, encontraram os dele. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios.

"Minha Rosa", ele murmurou, a voz rouca de emoção, "agora somos um só, diante de Deus e dos homens."

Ela estendeu a mão, e Tião a segurou com ternura, sentindo a maciez da pele dela. Não havia pressa, apenas a certeza de um amor que brotou devagar, como a chuva mansa que prepara a terra para a vida. Ele tirou o chapéu de couro e o pendurou no prego da parede, um gesto de quem se despe de seu dia para abraçar a intimidade da noite.

Rosa se levantou, e Tião a ajudou a desatar o espartilho do vestido. Cada botão, cada laço, era um passo para uma nova jornada. O silêncio era preenchido pela respiração dos dois, pelo batucar suave de seus corações. Quando o vestido escorregou e caiu no chão como uma nuvem branca, Rosa estava ali, em sua simplicidade e beleza, iluminada pela luz bruxuleante da lamparina.

Tião tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, percorrendo a linha da mandíbula, a curva do pescoço. Era a confirmação de um sonho, a materialização de um desejo puro e profundo. Eles não precisavam de muitas palavras. O olhar trocado entre eles dizia tudo: respeito, carinho, e a promessa de uma vida partilhada.

Naquela noite, sob o céu estrelado do sertão, Tião e Rosa iniciaram sua história. Não foi uma noite de arroubos ou paixões desenfreadas, mas de uma doçura singela, um encontro de almas que se reconheceram e se acolheram, plantando as sementes de um amor duradouro, forte como o umbuzeiro e resiliente como a caatinga. A primeira noite de núpcias foi o selo de um pacto, a confirmação de que, dali em diante, eles caminhariam juntos, sob o mesmo sol, sob a mesma lua, e com o mesmo coração.

Mané Beradeiro

24 novembro de 2025

terça-feira, 22 de novembro de 2022

QUEM É ELE?

 

 Um homem velho, tão velho quanto a escuridão. Ele ainda existe, a morte não o quer. Desistiu dele  já faz muito tempo.  Para não feri-lo com seu aguilhão, ela propôs um pacto e ele aceitou. "Ficarei longe de ti para sempre, mas te darei por companheira a solidão".  Muitas civilizações já nasceram e morreram deste que ele e a Morte assinaram esse pacto. Até mesmo a solidão, que com ele conviveu o suficiente  para romper  a linha do tempo, também se foi. 


E ele, o mais solitário de todos os homens do Universo, sentiu que seu corpo era formado não por células como a natureza dos demais, mas sim, pelas areias dos desertos e o ar que respirava vinha do carinho que o vento vazia naquelas areias.


Sem amigos, sem família, sem celular. Pasmem! Esse homem não tem redes sociais, inexiste ao mundo da Internet. E mesmo assim, é sábio. Tem mais conhecimento que o Google. Os anos, e estamos falando de milhões, deram a ele a sabedoria. Semeia tudo que sabe, distribuindo aos ventos, que leva aos cientistas, poetas, escritores, artistas, escultores, cozinheiros, magistrados, etc.

Há em suas mãos um cálice, ornado com pedras preciosas, do qual ele tira as fibras que vão formar os corações maternos. Que material é esse? É uma incógnita! A Terra vai girar muitos milhões de ano até ser descoberto a fórmula   dos corações que acalentam os filhos.

Dele também  é a Palavra, ou seria Ele mesmo a própria? Para provar há quem confirme que "se fez homem e habitou entre nós".

Tudo nele é fonte. Seu nome? Bem eu o chamo de ....


Francisco Martins

22 novembro 2022

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A LIGAÇÃO

 

-Alô
-Alô!
-Posso falar com Deus?
-Quem deseja?
-Um filho dele
-Um momento por favor
-Não, não faça isso! Eu suplico pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
-O que foi? Porque essa agonia?
-Um "momento" aí no Céu são muitos anos aqui na Terra, lembre-se do que está escrito em 2 Pedro 3:8: Um dia para o Senhor é como mil anos
-Verdade! Como pude esquecer disso. A frase é minha.
-Tá brincando? Então estou falando com Pedro?
-Sim
-Não acredito! Pedro Apóstolo?
-Ele mesmo
-Que legal! Mas você não é o Porteiro Celestial, o homem que tem as chaves do Céu?
-Não é bem assim ...
-Tá, depois a gente fala sobre isso, mas como meus créditos estão poucos, por favor passe a ligação para Deus.
-Seu nome?
-Mané Beradeiro
-Não acredito! O poeta cordelista que escreve folhetos bíblicos?
-Ele mesmo
-Nós gostamos muito dos seus poemas
-Nós, quem?
-Eu e muita gente que eterniza por aqui. Quando você chegar aqui vai conhecê-la.
-Eita!
-Vou passar a ligação ...
-Obrigado.
SEUS CRÉDITOS ACABARAM. POR FAVOR RECARREGUE E TENTE NOVAMENTE!
-Quê? Eu só queria dizer obrigado por 2021.


Mané Beradeiro 30 de dezembro 2021

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

MARINHEIROS

 Dentro do ano  em que comemoramos os 100 anos do nascimento do escritor Homero Homem, trago aos leitores mais um conto, pérola achada em minhas pesquisas. 

 


Uma noite meu pai chegou, vinha molhado dos pés à cabeça. Bateu as botinas no degrau da entrada, limpou o barro que aderira ao solado, desvencilhou-se do pesado oleado de marujo, entrou silencioso. Era de poucas palavras, hábito contraído na solidão das grandes viagens beirando acosta, de um extremo a outro do Estado. Alto e robusto, ostentava uma força maciça e lenta de marinheiro; as mãos eram duras e enormes, servidas de dedos onde repontavam calos. De tão grossos até pareciam inchados os dedos de meu pai. Recordo bem o seu físico áspero e agigantado, mas, por mais que me esforce,não consigo reter as suas feições. Lembro-me bem de seus olhos. Tinha-os pardos, de uma tonalidade que eu nunca vi reproduzida em ninguém mais. Fitavam parados, teimando esconder aquela velada fosforescência que irradiavam. Pareciam lutar contra a luz, os olhos de meu pai.

O mais nele tenho fielmente fixado: certos gestos, a voz rude, o jeitão agressivo com que fazia as perguntas - um súbito rompante de voz que ia se atenuando até transformar-se em murmúrio, que era o seu tom habitual de conversa.

Meu pai se desembaraçou da roupa encharcada, sentou à mesa. Minha madrasta trouxe quase em seguida o jantar: sopa de feijão, peixe frito com farofa de dendê e café. Meu pai comia calado, os grandes músculos faciais contraindo-se, relaxando-se. Eu acompanhava com tenção estudada os pequenos besouros que rodopiavam em torno do candieiro, fugidos da chuva que caía lá fora. Estava à espreita de uma oportunidade para contar-lhe o meu dia. Afinal tomei coragem, fui direto ao assunto.

-Estive hoje lá em cima; estou matriculado, meu pai.

Ele levantou a vista,olhou-me como procurando se lembrar do que falava eu; bebericou o café soprando no pires, e disse:

-Está direito…

A frieza me doeu. Estava acostumado a ela, meu pai era assim mesmo. Mas a situação era tão especial que me dera coragem para engendrar aquela conversa. Disfarcei a decepção com nova investida; a vontade de falar era grande.

-Sabe, meu pai, os exames começam depois do Carnaval.

-Hum… -fez ele.

Inútil. Refugiei-me num silêncio amuado, duro silêncio de menino sem mãe, acostumado à solidão. Meu pai acabara de tomar café, acendia o cachimbo - uma pesada peça de raiz de roseira, ornada com anéis de latão. Soprou a primeira baforada e, envolvido pela fumaça, falou devagar pondo-me os olhos em cima:

-Você espera passar no exame, João?

Tive um choque. A pergunta de meu pai era uma resposta, um eco à minha ânsia de comunicação e extravasamento. Raro meu pai falar assim, encarando-me como um igual. Era um homem entrincheirado em seu silêncio, um silêncio pesado como o resto de sua pessoa: difícil de romper. Cedo me acostumara a ele. Em casa, eu e minha madrasta, ninguém se espantava. Aquela frincha aberta em seu mutismo rasgava pela primeira vez uma perspectiva nova em minha infância, que era como a sombra miúda da solidão grisalha de meu pai. Naquele minuto eu compreendia anos inteiros de sua vida. Sentia-me tranquilo, embora uma emoção nova tomasse conta de mim. Ficamos assim um bocado - eu e meu pai. Foi ele que quebrou o silêncio.

-João - começou - estive pensando. Sou um sujeito rude, um homem do mar. Tenho sabido de seus planos, sua madrasta já me falou. A princípio não concordei muito, você sabe, filho de marinheiro pertence ao mar. Pensava que você um dia iria comigo. Pensava que assim ia ser com você.

Calou-se, deu uma baforada comprida, soprou a cinza que aflorara às bordas do cachimbo. E prosseguiu:

-Você saiu à sua mãe, foi feito para ficar em terra. Está me pedindo conselho, leio em seus olhos. Mas não sei o que diga, não. Nunca estudei, criei-me sem necessidade de livros; marinheiro precisa é de saúde e de fé em Deus, que a sabença tirada dos livros de nada adianta quando se está embarcado. Você escolheu sua vida, está certo; não atrapalho vocação de filho. Já para dar conselho retirante às coisas do mar, para isso não sirvo. Pense bem: você é filho de marujo, neto de marujo, marujo também. Está na massa do sangue. Os rapazes da cidade alta, estes sim, nasceram para estudar mesmo, ser doutor, subir na vida. Levam vida de estudante, os pais dão tudo. Com você é diferente; precisa trabalhar, o meu é pouco pro gasto, inda mais com despesas de livro, um horror de dinheiro. Enfim,você sabe…

Calou-se, suspirando fundo, foi à janela, ficou olhando as luzes da cidade refletindo-se nas águas do rio em estrias de fogo inquieto.

Tomado de desânimo eu olhava a sombra enorme de meu pai. Tocado pela claridade que vinha de fora, ele me parecia muito só, pequeno e desamparado. Tinha ímpetos de gritar-lhe - “não importa, meu pai, lutarei por nós dois!” Mas o silêncio nos pegou em cheio, ficamos assim um pedaço. Depois meu pai deixou a janela, teve outro suspiro velho de descrença, começou a desenrolar a rede que pendia do armador. Bocejei para disfarçar o tumulto que tomara de mim. E de súbito as palavras começaram a me sair da boca cheias de decisão:

-Amanhã começo a me preparar para o exame.

-Quem é quem vai lhe ensinar - perguntou meu pai impulsionando a rede para o balanço.

-Seu Geraldo da farmácia; cobra só quinze mil réis por mês…

Novo silêncio. A rede rangia monótona - rin… rin… rin…

-João!

-Sinhô, meu pai?

-Vá dormir para acordar cedo, menino. Se tem mesmo de ser doutor, precisa ir se preparando.

Tive ímpeto de correr para meu pai, abraçá-lo, tanger o punho de sua rede a noite inteira. Mas ele ressonava já, o peito enorme subindo e descendo com regularidade. Era um sono pesado e total. Sono de marinheiro que chega do mar.

 

9 de Maio de 1953 

domingo, 10 de outubro de 2021

A REZADEIRA CREUZA BATISTA

     


    Carminha passou a noite sem dormir. O motivo foi uma dor aguda que ela estava sentindo, começava no ouvido esquerdo, descia para a garganta e subia para os olhos. Foi uma noite agoniada.

Mal o dia amanheceu a mãe de Carminha mandou o irmão ir à casa de Dona Creuza, a rezadeira mais conhecida daquela região. Quando ela soube do acontecido com Carminha, disse ao portador: “Vou botar o café de João e daqui a pouco eu chego lá”.

Assim disse e assim fez. No caminho colheu algumas folhas de pinhão roxo. Isso era indispensável no seu ofício de rezadeira.

−Bom dia!

− Pode entrar Creuza. Carminha tá lá no quarto, a bichinha nem quis tomar o café.

Dona Creuza entrou naquele quarto e viu Carminha encolhida e coberta com o lençol de saco de algodão.

− Sente fia, não é bom receber a reza deitada.

A menina-moça sentou com muito esforço. Dona Creuza perguntou o que ela sentia, à medida que Carminha falava, a rezadeira catalogava os santos.

−Tenho dor nos olhos

−Santa Luzia desce pra cá

−A garganta muito inflamada

− São Braz venha também

−Meu ouvido esquerdo lateja demais

Aí Dona Creuza ficou em silêncio tentando lembrar quem invocaria. Poucos segundos depois ela tinha duas opções: São Francisco de Sales e Santo Agostinho. Qual escolheria? Optou por São Francisco de Sales.

−Chico de Sales não demore chegar.

Dona Creuza tinha intimidades com os santos da sua preferência. Uma vez feita a convocação deu-se início o ritual da reza. Fez o Pelo Sinal, o Sinal da Cruz e com os ramos de pinhão roxo na mão direita tocava levemente na cabeça, umbigo, ombros esquerdo e direito de Carminha, inúmeras vezes, enquanto pronunciava as palavras da sua reza:

Iam Pedro e João a caminho de Jerusalém, quando se depararam com Santa Luzia.

“Pra donde vai Luzia Santa?” Perguntou Pedro.

“Vou curar a menina Carminha que sofre de dor nos zóios”. Pai Nosso e Ave Maria, seja noite ou seja dia dai a cura a Carminha.

 João disse a Luzia:

“Leve pinhão roxo pra benzer a tal menina. Vá depressa oh Luzia acabar com agonia que ela veja Jesus Cristo nesta sua travessia”.

Creio em Deus, o Pai Eterno

No seu filho, o Redentor

Creio no Espírito Santo

Do amor revelador.

 

Enquanto Creuza rezava e tocava Carminha com as folhas, essas iam ficando murchas.

 

     Na estrada desta vida

     Encontramos muita dor

     Mas também temos a Graça

     Dada por Nosso Senhor

     De curar toda mazela

     Vem São Braz levar Carminha

     Ao Poço de Jacó

     Dai-lhe água tão bendita

     Curai dela a garganta

     Dai-lhe força sacrossanta …

   Aqui Carminha interrompeu Dona Creuza

   −Eu não quero ir para o Poço de Jacó!

       Toda dor que nós sentimos

                Já sentiu Jesus na Cruz

                Sete selos do destino

                Tem homem, mulher e menino

               Vinde São Francisco de sales

                Com o poder de Jesus

               Curar a dor de Carminha

               Neste ouvido inflamado

               Devolver para a menina audição

               recuperada. Salvem os Santos da Igreja,

               Salvem Braz, Salve Luzia, Salve Francisco de Sales

               Na manhã de cada dia.

               Em nome de Jesus. Amém!

         Quando Creuza terminou a reza, as folhas do pinhão roxo estavam todas murchas. Deu água a Carminha e fez algumas recomendações.

         Ao se despedir, lembrou a frase que gostava de falar: "É na doença que o santo vale mais”.

 

Mané Beradeiro

08 de outubro 2021

  

     

sábado, 14 de agosto de 2021

RETRATO DE HELOÍSA

É domingo, estou em casa e enquanto me preparo para ir às corridas penso em minha namorada. Heloísa chama-se ela, e é de uma vaga cidade “Pureza” - que eu suponho florida e doce, graças a uma dessas associações que nos vêm à cabeça e ficam lá morando, até que a expulsemos à força de uma decepção. Heloísa tem apenas seis meses de Rio, dos quais cinco me pertencem por direito de descoberta e conquista.

No começo do nosso namoro eu ficava a imaginar o que ela vira em mim de notável para me querer tanto: sou um homem feio. Talvez eu, moço da cidade, deva ter parecido à Heloísa a antítese viva de tudo quanto ela conheceu anteriormente em matéria de rapaz. Assim raciocinava, encerrando o assunto. Quando nos conhecemos, houve em nós uma reciprocidade de espantos. Heloísa se espantou de mim , eu me espantei de Heloísa. Haverá melhor base para o amor? Tanto não há que nos amamos logo. Se bem recordo, disse eu então a Heloísa: “Mas é o campo na cidade!” - e foram estas as primeiras palavras que ela escutou de minha boca. Por atrapalhação ou cortesia, a sua resposta veio no mesmo tom de trocadilho: “Na cidade, sim, e com muito prazer!” Rimos e ficamos namorados. E aos poucos nossos nomes foram se diluindo ao calor de conversas semelhantes, ao ponto de, quinze dias depois desse primeiro diálogo, trocarmos frases assim: -A cidade virá ao campo amanhã? Ao que eu, Esmeraldo, respondia: -A cidade chegará às sete e meia em ponto.

Chegava, e tinham início as conversas, que giravam mesmo, entre um abraço e dois beijos, sobre campo e cidade. Se falávamos do campo Heloísa simulava desembaraço, cosmopolitismo, rindo comigo de suas coisas físicas e humanas, as quais eu reduzia, com alguma habilidade, à matéria anedótica. Heloísa é de riso fácil: sua risada se perdia por entre as árvores do subúrbio, quieto àquela desora em que ficávamos de conversa no portão. Mas quando ela gargalhava com inteira franqueza e convicção era quando tocava a sua vez de analisar a cidade, criticá-la, interpretá-la. Aqui ela ria toda, com olhos, cabelos e uma boca armada de muchochos que se me afiguravam claramente boca, cabelos e olhos do campo. Não que Heloísa não gostasse da cidade. É que o seu raciocínio era feito de um feno especial, muito claro e muito campestre. Residindo no arrabalde de uma grande metrópole era como se continuasse a viver na sua longínqua e humilde “Pureza”. Vê-se daí como somos diferentes, o que talvez explique a nossa mútua afinação amorosa.

 Nasci nesta cidade, da qual nunca me apartei. Fui criado por uma velha tia que, passando desta para a melhor, me transferiu a um internato para órfãos, do qual fugi aos treze anos para levar a vida solta que ainda hoje, com vinte e cinco anos e a profissão de corretor de corridas, ainda gozo. Já Heloísa teve a organizada e tranquila vida de moça da roça. Por isso Heloísa tem base, tem constância e tem consistência, três coisas que me faltam. Sou em tudo um flutuante, enquanto Heloísa é sedimentada como um edifício de arranha-céus, ruim imagem de cidade à qual recorro para explicar um objeto do campo. Mas a rigor este já não é o retrato de Heloísa. Foi o retrato de Heloísa. Porque, a partir do dia em que nos conhecemos, Heloísa mudou, embora não se aperceba e até negue, quando acusada. Curioso como Heloísa cisma de me conhecer. Tenho algumas entradas no xadrez, dois processos por coisa de somenos, a polícia de três Estados gostaria de me segurar. Azares da profissão.

Contei tudo a Heloísa, num domingo em que fomos à Quinta da Boa Vista e subitamente me senti comovido de vê-la assim abandonada no relvado, os olhos macios pousados em mim, o cabelo irisado de pingos de sol. Mas não se deu por achada, nem desta nem das outras vezes em que voltei a falar-lhe de minha vida. Muda sempre de assunto, não sem antes afirmar ter penetrado a essência da minha interioridade, a de lá arrancado, não sei a força de que ganchos, uma palavra estranha e nova para mim: o adjetivo “bom” que ela põe na boca  com sonoridade de qualificativo evidentemente campestre:

 -Você quer é se fazer de mau, Esmeraldo. Mas eu sei que você é bom. Diz, sorri, me abraça. E eu, consultando a cumplicidade da rua, com o rabo do olho, beijo-a na boca. Esta penúltima operação é sempre necessária: Heloísa tem medo da língua da vizinhança. Se Heloisa me quer, raciocino friamente, é uma função daquela crença, da qual rio abertamente, embora vá alimentando com palavras e até com atos a matéria prima de tão inusitada suposição. Por ser do campo, Heloisa pensa que todo mundo é de lá. Daí o mal entendido. Mas voltemos ao namoro. Para cinco meses de romance está a parecer que a cidade tem caminhado com vagar. Não tanto, conforme passo a expor sem grande quebra de discrição, antes a bem da cidade, ou da verdade mesma. Ao correr desses meses, Heloisa tem descerrado suas faldas, se deixado rasgar, como uma colina macia, na alma e outras geografias. Devagar, é verdade, porque há em Heloisa uma inata tendência para dizer não! à cidade, ao mesmo tempo que sabe ir exigindo coisas. Por exemplo: os nossos primeiros encontros tinham certa intermitência. Verificavam-se no portãozinho da pensão onde mora Heloisa, às terças, quartas e sábados. Mas com jeito e vagar Heloisa foi reclamando maior assiduidade, que o campo tem as suas reivindicações. Encontro diário era uma delas, e eis-nos dependurados todas as noites na cancelinha do jardim da pensão, até lá para depois das dez. Encontro e passeio diário pelas ruas penumbrentas do bairro são sinônimos, sabeis ó namorados que não andais aos bandos. Eis-nos, pois, de braço-dado, alargando nossos conhecimentos: Heloisa, da cidade específica e da cidade submersa que dorme em mim; eu, do campo que há nela, cada vez menos nela. Digo assim porque - verifico com desprazer - Heloisa tem mudado. Já não é filha de Maria, nem vai à Igreja aos domingos, como era seu hábito. Primeiro deixou atrasar a mensalidade, até então paga pontualmente à Virgem. E ultimamente refuga com brusquidão os recibos que padre Domingos, supondo-a doente, manda cobrar por intermédio de seu Doca, o sacristão.

Faz planos para o futuro, lamenta o tempo que perdeu bobamente em “Pureza”; encasquetou-se-lhe na cabeça a ideia de mandar buscar a prima Lúcia, “que está mofando naquela terra onde o diabo perdeu as botas”. Diz assim e sorri - um sorriso da cidade mesmo. E eu fico a procurar nas suas pupilas um pouco da terra e do vento da sua longínquo e ensolarada “Pureza”. Não distingo traço: nada daquele mundo flutua agora nas líquidas e escuras pupilas de Heloisa. E de tudo o que mais me preocupa, ao ponto de cogitar numas férias e viajar - viajar para o campo - de tudo, o que mais me preocupa é o seguinte: Heloisa vai ter um filho. 

Homero Homem

14 de Março de 1953

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

CONVERSA DE CANCELA: VOLTANDO PARA CASA

 A tarde terminava com o sol se pondo entre as carnaubeiras.  Uma imagem linda de ser vista, um descanso à alma do homem que retornava à casa  após uma dia de labuta  lavrando a terra.

Tão logo pegou a estrada,  eis que nosso campesino se encontra com Mota, seu vizinho que também voltava do trabalho. Mota gostava de prosear, tinha conversa para tomar menino das garras do papa-figo e até mesmo fazer bode tomar banho de chuva.

−Boa tarde meu amigo!

─ Boa tarde!

─ Ainda está com a visita do seu cunhado?

─ Sim, não vejo a hora daquela criatura voltar para  Santa Cruz

─ Por quê?

─ Meu amigo sabe que eu não sou miserável, mas aquele rapaz é uma estrovenga.

─ Então é trabalhador?

─ Antes fosse. Quando digo estrovenga refiro-me  à  vontade que ele tem de comer. Agora eu entendo o ditado: parente é como praga de gafanhoto: come tudo.

─ Pois está na hora do senhor ensinar a ele que  aranha vive do que tece.

─ Eu? Imagina se vou me meter nisso, ele  é metido a valentão e eu não quero  criar problema no meu casamento por causa de cunhado ademais em buraco de cobra tatu não entra.


 

E assim, enquanto caminhavam, os dois homens mantinham a conversa recheada de sabedoria popular, os famosos adágios, provérbios que vão passando de geração a geração.  Já chegando  próximo da casa de Mota, esse falou se despedindo:

─É ditado da cutia: o sol se pôs, acabou-se o dia; mas é ditado da raposa: o sol se pôs, ainda se faz muita coisa.

 

Mané Beradeiro

Parnamirim-RN, 12 de agosto 2021

 

As ilustrações são de Perci Lau. Fonte: Almanaque Globo Rural, ano 1, 1987, página 139.

 

domingo, 4 de julho de 2021

"A IGREJA DO DIABO" NA VISÃO DE UM LEITOR CRISTÃO

 


Em 1884 Machado de Assis então com 45 anos  publicou pela Garnier, um conjunto de contos intitulado "Histórias sem data". Nesse livro, o conto de abertura é "A Igreja do Diabo", que tem quatro capítulos. O texto trata exatamente do que declara o título - isto é - o Diabo funda uma Igreja.

O anjo decaído não nega seu caráter destruidor, "aquele que veio para destruir" tem bem ciente o seu papel: "...combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez" (Cap.I, Parágrafo I). Há nesse conto verdades bíblicas. É bom dizer que o autor, intelectual, que provavelmente tenha sido coroinha "na Igreja de Lampadosa, na altura dos seus catorze ou quinze anos....conheceu de perto a atmosfera  das Igrejas" (Massaud Moises- Coleção Vidas Ilustres - Volume Os Romancistas, ano 1961).

Quando lemos há muitas coisas que estão presentes nas entrelinhas, e com  maturidade de leitor vamos notando isso ao decorrer do nosso crescimento. São as sombras das frases! O fato do Diabo se apresentar a Deus - fez-me lembrar que no livro de Jó ele também esteve diante de Deus e debalde argumentou que  Jó só era fiel a Deus porque era rico e tinha uma família feliz. "Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face", diz o Diabo ( Jó 1:11). E é nesse livro de Jó que aprendemos ser o poder do Diabo limitado. "Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder, somente contra ele não estendas a mão" (Jó 1:12).

Voltando ao conto "A Igreja do Diabo" vemos no final do capítulo II, no último parágrafo:"Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mas Deus impusera-lhe silêncio". Notem a Onipotência de Deus mostrada por Machado de Assis neste parágrafo - Deus impusera-lhe silêncio! "Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina" - Aqui também nos deparamos com mais duas verdades bíblicas - presentes nas sombras das frases - são elas:

1)  Apocalipse 12:12b "Ai dos que habitem na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo"

2)  II Coríntios 11:14 "...Porque o próprio satanás se transfigura em anjo de luz"

Machado de Assis teve em certo tempo da sua vida, amizade com o Padre Silveira Sarmento, que lhe ensinou Latim. Isso foi em 1858 - tinha ele 19 anos. A influência do Padre Sarmento na formação do jovem Machado foi mais além do que o Latim.  O fato é que sabia escrever com maestria, não apenas no estilo literário, mas também na profundidade do assunto,  com domínio e conhecimento. Não podia ser diferente quem cresceu sempre nutrindo o gosto de ler.

Em 1856 - aos 17 anos - trabalhava na Tipografia Nacional - como aprendiz de tipógrafo. Um funcionário superior surpreendeu-o em falta,  porque lia em pleno expediente, encaminhou-o ao administrador da repartição que era Manuel Antonio de Almeida, autor do livro "Memórias de um Sargento de Milícias". Este passou a  ampará-lo e foi amigo de Machado de Assis até seus dias finais.

Chegando ao capítulo IV notamos que a Igreja do Diabo era sucesso. Estava presente nos quatro cantos da terra, mas havia O HOMEM no meio do caminho, lembrando a Pedra de Drummond que Machado não chegou a ler. E o homem - o mesmo que optou por perder o Paraíso lá no Gênesis - também agiu sendo infiel ao Diabo, mostrando "a eterna contradição humana".

Quero trazer a riqueza de elementos de intertextualidade que está presente nesse conto. São portas de diálogo que Machado de Assis deixa para o leitor abrir. Vejamos algumas:  Abrãao - homem natural de Ur, região da Caldeia, do qual se originaram o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo , religiões com crença em um único deus; Maomé - profeta que recebeu de Alá a inspiração para escrever o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos; Lutero - monge agostiniano que se tornou uma das figuras centrais da Reforma Protestante; Fausto - personagem de uma lenda popular alemã que fez pacto com o Diabo em troca da sua alma; Homero - poeta da Grécia antiga autor de Ilíada e Odisseia, além de outros.

Por fim, o que aprendemos com o conto?

Coisas assustadoras não podem ganhar ideia de normalidade

Natureza dissimulada é sempre perigosa

Quem mais compreende o homem é o seu Criador - Deus.


Francisco Martins